Quem
pergunta pela lógica de tudo estraga a maravilha das coisas.
É com esta reflexão que nos debruçamos sobre
o ensaio 'Soltando os Cachorros' de Mario Grisolli. De saída,
somos levados a um campo de potencialidades visuais imprevisíveis
quando o artista, em seu jogo de linguagem, explora uma chuva de luz
que dilui o contorno dos animais no espaço, transformando-os
quase em aparições antropomórficas. Ou, ainda,
no uso de sua câmara Instamatic, simples, barata e sem recursos,
que lhe permite desvencilhar-se do complexo aparato fotográfico
do cotidiano para enfocar os cachorros em movimento, envoltos pela
natureza exuberante, e tão livres no seu ir e vir. É
assim que Grisolli ameniza a dureza do figurativo e nos mostra que
a fotografia pode ir bem além da concretude do mundo.
Assim, nesta exposição, uma chave nos leva ao lema do conhecido fotógrafo Man Ray na busca por uma “realização automática da arte”. “Da irrealidade contida na própria realidade”. É preciso escavar, penetrar, mergulhar no espírito das coisas. Não é uma tarefa fácil. Tudo parece estar visto, nada tem a força do heterogêneo, do impensado subversivo. E, talvez a força simbólica do trabalho de Grisolli resida na maneira como sua personalidade amável e inquieta se relaciona com as coisas. “Em 1998, ganhei um cachorro igual ao que tive quando era menino. Encontrei uma câmara Instamatic, a mesma que me presentearam quando tinha 9 anos”. Desta forma, cão e câmara estão de maneira arcaica ligados à história do fotógrafo : “tinha o cachorro ‘salsicha' e a câmara da minha infância, e então comprei os últimos 50 filmes encontrados no comércio do Rio de Janeiro. Foi quando comecei a sair para fotografar, partindo do que era mais visceral, mais cordial em realidade, porque relacionado com o meu coração”. Surge, então, uma produção impregnada pela espontaneidade e pelos acordes da leveza de uma linguagem que abre uma janela para uma paisagem configurada por pequenos corpos em liberdade no espaço. De um lado, poderíamos dizer, esta exposição nos leva a relembrar a produção de fotógrafos como Garry Winogrand, Elliot Erwitt, William Wegman e Keith Carter, que em distintas épocas e sob variadas poéticas, enfocaram o universo animal conferindo-lhe uma mirada um tanto quanto inquietante e perturbadora. De outro, enseja uma inevitável aproximação com Italo Calvino, o grande escritor italiano, que defende a “leveza” para evitar que o peso da matéria nos esmague. Seu objetivo maior era remover a pomposidade, a complexidade, o rebuscamento. Linguagem sem peso, flutuando sobre as coisas. E Grisolli consegue fazer isto plenamente. Sem ser raso, sobrevoa o real como Perseu que decepou a cabeça da medusa com as sandálias aladas. Sem ser frio, mostra o afeto. Sem ser piegas, consegue encantar a todos nós espectadores mediante a transfiguração fantasmática e onírica de uma realidade que surge do seu próprio ser.
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